O Deserto cristão

O deserto tem lugar de destaque na espiritualidade cristã. Tornou-se um símbolo do lugar de lutas e encontro com Deus. O deserto é essencial à espiritualidade. Não como um fato em si, mas como um estado do coração diante de Deus e de nós mesmos. O mundo moderno tem se caracterizado por relações superficiais, inclusive a espiritual. Algumas características da espiritualidade moderna, tais como, o pragmatismo, onde a relevância das coisas é determinada pela sua utilidade imediata, a necessidade de preencher todo espaço vazio, e o consumismo, que determina o sentido, valor da realização do homem, tem tornado o deserto uma realidade espiritual absolutamente necessária.
“É possível construir uma amizade profunda, íntima e pessoal com Deus sem dispor de tempo para esse encontro?” (p.98).
Devemos redescobrir o deserto, que consiste em conhecer Deus na intimidade do nosso coração, não em experiências religiosas ou informações teológicas. É lá que tudo que nos confunde é desmascarado, nele estamos a sós com o Senhor, nossa fé é posta à prova, e provamos da existência de Deus. O deserto faz parte da tradição cristã. A espiritualidade do deserto, têm sua maior expressão à partir do quarto século, com o surgimento de movimentos de migração para os desertos com o desejo sincero de resgatar a espiritualidade que perderam no processo de secularização da religião. Alguns se organizaram na forma de comunidades, outros optaram pelo eremitismo, mas todos caminhavam em direção a um encontro verdadeiro com Deus. Como exemplo, podemos destacar o Monastisismo, que teve início a partir da oficialização da igreja pelo império na época de Constantino, que se caracterizou pela rejeição às mudanças e introdução de valores seculares e mundanos, de uma sociedade pagã, na igreja. Os cristãos adeptos desse movimento eram radicais, tanto na leitura e obediência ao ensino bíblico, como na renúncia a instituições religiosas e seculares. Qualquer consideração sobre as origens da espiritualidade cristã deve começar pela análise dos movimentos que tiveram seu início no final do terceiro século e começo do quarto. Nesse período, os movimentos religiosos buscavam a santificação, pureza, devoção, trazendo assim, modelos que influenciaram a igreja em toda sua história. É nesse período que encontramos os Santos da igreja. Até o século dezesseis, o teólogo e o santo eram a mesma coisa. Portanto, o teólogo deveria ser convertido, e que gozasse de íntima comunhão com Deus. Após o século dezesseis, com o surgimento do Racionalismo, fruto das revoluções culturais como o Renascimento e o Iluminismo, todo cristão passou a ser um teólogo, visto que o conceito era, ser capaz de explicitar a realidade de Deus. Hoje, a teologia se tornou ciência. Não temos mais os nossos santos. Ao refletir sobre os pais do deserto, buscaremos resgatar alguns valores que fizeram destes, os santos que foram. Hoje os santos foram substituídos pelos ídolos religiosos e pelas celebridades. Vale lembrar que, os santos nos motivam a perseverar, devem ser imitados, não idolatrados. Alguns dos ideais do monastisismo são: ascetismo, imitação de Cristo, protesto, solitude e contemplação, martírio, obediência e submissão. O Ascetismo caracteriza-se por uma rigorosa autodisciplina espiritual. Com objetivo de buscar a comunhão plena com Deus, em obediência absoluta se afastando de tudo que possa trazer inquietação, afim de não se desviar do caminho da retidão. O ascetismo sofreu influência gnóstica. Mesmo encontrando rejeição no mundo ocidental, pode-se tirar proveito da prática ascética nos dias de hoje. A proposta é buscar libertação dos vícios que o pecado cria em nós, e resgatar os ideais cristãos apresentados por Jesus nos evangelhos, a fim de experimentarmos a liberdade de Cristo. O ascetismo deve ser considerado como uma postura do cristão diante da vida e da realidade do mundo e do pecado. A prática ascética precisa ter como propósito a transformação em Cristo. O resgate das práticas ascéticas equilibradas, que preservem a eficiência da cruz e da graça de Jesus, trará uma enorme contribuição a espiritualidade moderna. O compromisso com a vida monástica era mais voltado para imitar a Cristo, do que para a rejeição do mundo. O ideal era chegar a um estado de perfeição encontrado somente em Cristo. O exemplo de Cristo deveria ser seguido em todas as coisas. O movimento monástico também representou um movimento contra cultural protestando contra a estrutura eclesiástica da época. A aliança entre Igreja e Estado fez os cristãos buscarem novas formas de revitalizar os ideais primitivos da religião, como exemplo, a renuncia. Assim como, nos dias de hoje, há muita coisa acontecendo em nome do evangelho que nada tem a ver com ensino de Jesus. Para preservar os ideais do Cristianismo sempre haverá um protesto. Apesar da espiritualidade do mundo moderno estar voltada para o trabalho ao invés do silêncio e contemplação, devemos admitir que grandes descobertas científicas aconteceram quando homens sábios com suas mentes contemplativas, conseguiram captar fenômenos presentes para todos, mas que a maioria das pessoas com a mente ocupada demais não podiam perceber. Se para descobrir os fenômenos da natureza, que são claros, é preciso ter paciência e contemplação, imagine como deva ser penetrar nos mistérios de Deus e da vida. O silêncio e contemplação na tradição cristã são a postura que assumimos diante de Deus para ouvir a sua voz. É uma tentativa de esvaziar a mente dos pensamentos humanos e enchê-la com pensamentos de Deus. O caminho de volta para o coração de encontro com nossa alma, só pode ser trilhado através do silêncio e da contemplação. O sangue dos mártires sustentava a integridade dos cristãos e do Evangelho, com a tranqüilidade alcançada no período de Constantino, temia-se que com a frouxidão religiosa encaminhasse uma apostasia. O ideal monástico mais chocante deve ser o martírio. Mesmo com seus exageros esse ideal nos trás mensagens importantes. O martírio também foi, uma tentativa de resgatar o significado da cruz para os discípulos de Cristo. Ele aponta para a cruz. O sofrimento era visto como um fato que acompanhava a vida dos que desejassem seguir a Cristo. O caminho do discipulado sempre será um caminho em direção ao Calvário. Para eles era grande honra e privilégio sofrer como Jesus. Vivemos um momento em que o sofrimento é considerado maldição e a prosperidade material representa a única referência da presença e bênção de Deus. A cruz é facilmente trocada por outros símbolos de fé, em momentos de tranqüilidade. Na tradição monástica, a obediência era o caminho para experimentar a verdadeira liberdade. A liberdade não consiste em fazer o que quero, mas aquilo para o que fui criado. Significa ouvir a Deus e agir sob a orientação da sua Palavra. A obediência de Cristo ao Pai, foi à inspiração. Para os pais do deserto, a obediência não era relacionada com sistemas hierárquicos, domínio ou poder. Era fruto da humildade que nascia da experiência e do conhecimento de Deus. A obediência e a submissão são pelo amor e renuncia ao poder do mundo. È bom lembrar que nossa salvação se tornou possível, por causa da obediência de um homem. O deserto deve ser visto não apenas como um afastamento geográfico e social, mas como uma atitude, uma postura diante de Deus e de nós mesmos. O deserto é o lugar onde os ídolos são quebrados, onde não existem valores que possam substituir Deus. É o lugar de nossa nudez. E é somente diante de Deus que nos tornamos livres para nos relacionar com as pessoas. A solidão do deserto é necessária para a purificação da alma e do coração. Não temos idéia do quanto nosso coração está cheio de valores mundanos. O deserto na linguagem bíblica significa confronto, luta, tentação, despojamento e entrega. Precisamos passar pelo deserto, a fim de nos esvaziarmos dos valores do mundo e conhecer a verdade absoluta de Deus para nossas vidas. Vemos pessoas que passam a vida inteira sem dar a mínima para Deus, não dispõem de tempo, talvez falte um deserto na vida delas.
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¹Resenha de SOUZA, Ricardo Barboza. “O lugar do deserto na conversão do coração”. Apresentada à disciplina de História da Igreja em Abril de 2005. Escola Teológica Reformada da Barra da Tijuca.

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